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15 de set. de 2010

Furtivo

O ambiente estava adequadamente climatizado, apesar da leve sensação de frio que causava sobre sua pele fina. Ela parecia totalmente perdida dentro de si, não de uma forma vazia ou sem sentido, mas como se estivesse dentro dos seus próprios desejos e aspirações. Ao contrário do que possa estar pensando, não estou falando de um espaço glamouroso, nem nada do tipo, refiro-me apenas a uma imensa livraria que fica na esquina de sua rua. Sei que pode parecer patético, mas para aquela garota ser abraçada por milhares de livros e suas mais diversas histórias, era a coisa mas reconfortante que ela poderia querer para si.

Saindo um pouco do seu estado perdido, ela reparou em um garoto alto, com um corpo muito bem feito e proporcional, seu olhos castanhos fazendo um contraste lindo com a sua pele clara de cabelos loiros. Ele parecia estar olhando todos aqueles livros com um certo interesse que fazia seus olhos brilharem, tanto quanto os dela faziam ao encontrar o título de um belo romance. Pelo que me parece ele havia percebido a sua presença ali primeiro, já que se concentrou em ler cada título da estante em que ela estava, lhe lançando olhares doces e furtivos.

Aquilo, agora, era tudo o que ela poderia querer. Um amor escapando das linhas dos livros, em uma maravilhosa e lustrosa livraria, inundada com um cheirinho de café capaz de deixar tudo mais especial.

O celular toca. Ele atende. Parece não estar muito certo do que está ouvindo e do que, de fato, quer fazer. Contudo ao final parece ser convencido pela pessoa do outro lado da linha, julgando pelo sorriso torto que dá, como se tivesse sido vencido por alguma proposta irrecusável. Então ele sai da loja, lhe dando um último olhar, deixando aquela garota ser abraçada por milhares de livros e suas mais diversas histórias. Aquilo, agora, era a coisa mas reconfortante que ela poderia querer para si.
5 de ago. de 2010

Depois da meia-noite

Era uma camada de pura magia a que os envolvia. Límpida, insípida e incolor. Como água, era desse elemento que era feito seu amor. Apesar de por anos, ela ter acreditado que o romance lhe cairia do céu, ele enfim brotou rasteiro, do fundo da terra, tomando terreno e transbordando sobre os poros de cada grão.

O mundo era deveras maldito diante do sintilar que seus toques produziam à céu aberto. Eu poderia ouvir de longe as músicas ambientes que brotavam dos sorrisos daquela menina, e não negaria sequer por um minuto a inveja - por mais pura que fosse - daquela dupla de almas cruzadas. Eles eram pura borbulha de contentamento descontente, e estavam trancafiados dentro de um universo tão íntimo e particular... Eles eram de si próprios e de mais ninguém.

Compartilhavam tudo, sem dizer. Faziam de um encontro impossível, um choque estrelar, e eu mera observadora, só era ofuscada pelo sonho de querer algo assim para mim tambem. Desde então, tenho cumprido as regras, feito todo bom e necessário à espera de alguem realmente especial. Mas por hora, deleito-me apenas em falar da camada mais límpida, insípida e incolor que eu jamais pude ter para mim.




21 de jul. de 2010

Cravado

Era dia comum. Uma brisa corria de forma lenta, mas extremamente viva, se fazendo sentir até pelas faces mais insensíveis. O sol ocultava-se por detrás das nuvens rarefeitas que maquiavam o azul desbotado do céu. E eu, sentia cada centímetro do dia, acolhida sob um árvore da rua.

Ao contrário do que se possa imaginar, sua copa não apresentava muitas folhas, tinha uma expressão mirrada, meio amarelada, por outro lado, seu tronco era vistoso, com alguns acúmulos de seiva aqui e ali. Também era bastante largo. Se eu tivesse pensado naquele momento em abraçá-lo, com certeza não conseguiria tocar as mãos.

Porem, logo o meu momento de divagação foi quebrado, quando ao correr os olhos pela árvore, avistei na parte inferior símbolos cravados, que mais tarde conclui serem iniciais. Elas não me pareciam recentes, uma vez que vivemos em tempos onde provas de amor não são mais necessárias. Mas me proporcionaram reflexões tão novas e inusitadas, quanto um livro utópico poderia.

"Quem ama guarda, retrata, canta, escreve, delira, esquece, relembra, gargalha e tem vontade. Rascunha letra escarlate e não deixa para as lembranças o sentimento que se sente ao ver alguem. Porque apesar de se querer provas, o que realmente importa é o que se crava no peito."

E eu cravei isso em mim.
9 de jun. de 2010

Bela rosa

Uma flor viveja num jardim. Seco. É meio de verão, e o sol já não mais escaldava coisa alguma, devido ao descampado que se formara. Vazio. Ela é a unica rosa, esplêndida e exuberante que persiste sobre o inexsistente. Teus olhos, assim, quase que sem escolha, se enchem de vontade e uma vida sem aquela rosa vermelha, você já não conseguia imaginar.

Se houvesse a possibilidade daquele jardim ressurgir, ali estava a bela que o faria. Esperança certa da vida. Quantas seriam as rosas que brotariam das felicidades daquela precursora da vontade de viver, do brilho, da cor. Mas você mal pensou.

Anda acostumado a ser molde, e não a si moldar - entendo - e não pensou que agora era responsável por uma vida que lhe pertencia. Esta agora seria tão sua quanto a sua própria. Ela expulsou os seus espinhos, meu caro. E você mal percebeu que aquele botão desabrochou para você. Não, claro que não percebeu. Só queria tê-la as mãos e bem, ao que parece, você conseguiu.


2 de jun. de 2010

O que você quer ouvir

Era tarde boa, fresca. Você me olhava com aquele seu olhar perdido, como se estivesse procurando por algo que eu tinha certeza que poderia te dar, só não sabia como. Meu viver retilíneo sempre foi ponto seguro das coisas que eu nunca quis dizer. Era como estar no baixo olhando você com os olhos virados para cima, consciente da distância segura que nos separava.

- Por que você me quer assim tão longe? - Ele falou me olhando bem nos olhos. - Por que não deixa eu me aproximar de você?

- Não está feliz? - desviei o olhar - Estamos sendo casuais, deixando fluir. Esse sempre foi o grande segredo dos bons relacionamentos, não!? Ir deixando acontecer..

- É só que é como se existisse uma barreira entre nós. Invísivel, já que muitas vezes eu próprio a esqueço, mas muito espessa, porque as minhas tentativas de atravessa-la são sempre vãs.

- Então, talvez... - falhei a voz por um instante - seja a hora ir.

- Não foi o que eu quis dizer.

- Mas foi assim que eu entendi, e isso por si já basta. - então fui.

Agora, ando precisando de uma nova história que saia de dentro do meu peito. Minha vida parece vazia e sem propósito, de sentimentos clichês e farças que nem eu controlo mais. Venho andando à beira de um precipicio porque esse, é agora, o lugar mais alto para alcançar o céu. Mas os meus segredos continuam sendo só meus, porque por mais fácil que seja estar com você, não tenho coragem de dizê-los assim. Tenho medo de cair nua aos olhos alheios.

Então você vai chegar amanhã para mim, fazer a chuva parar de bater na janela e me dizer para parar. Eu vou aceitar seus braços contudo continuarei indo, porque estou me esvaindo por vontade de estar contido e não conseguir dizer tudo o que você quer ouvir.

Pauta para o Postagem Coletiva
30 de mai. de 2010

A ela dou o final feliz

Eu vou dar a ela seu melhor vestido preto e uma noite de céu escuro, manchado com o brilho mais prateado das estrelas. Colocarei "See You Soon"do Coldplay para tocar, lhe darei o olhar mais tímido e doce que o momento exige e aproximarei seus corpos fazendo a mágica acontecer. Espere. Ele irá agarrar a sua sintura e dizer o quanto parece bonita. Você tentará evitar o olhar, mas ele lhe pegará pelo queixo, vocês se olharão por segundos incontáveis e então acontecerá. Um beijo.

Vocês explodem sonhos abaixo, gritos silenciosos fogem de seus olhares e pensar se torna segundo plano, superado pelo amor. Vocês, agora, estão desfrutando de aventuras amorosas, tolas e sem sentido. É apenas um sentimento que lhe toma o mundo das mãos e lhe dá como posse o coração dele. Você aceita porque quer correr todos os ricos, e eu te darei todo o mel do mundo para ser feliz.

Porque a você minha cara, moverei montanhas para encontrar o avassalado sentimento que lhe toma as entranhas. Eu tenho esse poder, logo que crio-te. Já a mim, só resta estar à deriva do destino ou das oportunidades, chame como perferir, ambos me fazem ter que esperar. Simplismente acontecem.


*Gente, eu sou a nova moderadora do
Postagem Coletiva, estamos com tema novo. PARTICIPEM!
21 de mai. de 2010

É o que é para mim

A mágica começa quando você me olha nos olhos e finge não me ver. Quando você passa ao meu lado e aquela sensação de enjoo me toma o corpo, e os pensamentos mais tolos me fogem a mente. Mas veja, nem é sua culpa. Admito que sempre fui levada pelo instinto de me entregar aos detalhes mais sutis e de me por em situações de perfumes e orvalho.

Vale ser dito que não é o seu andar, mas sim, como anda para mim. Não é o seu olhar, mas sim, como olha para mim. Não é o seu brilho, mas sim, como brilha para mim. Portanto, não se dê ao trabalho de mudar, porque seria a sua tentativa mais vã até que eu resolvesse mudar a forma com que te moldo.

Se mil sóis fossem tirados do seus olhos eu recobria suas órbitas com milhões luas. Você é o que é. Para mim, por mim.
9 de mai. de 2010

Como as estações de fato são

Passei meus olhos um único instante pelo céu, e parecia que havia os perdido entre as nuvens e o brilho azul que as permeava. Não era para ser um dia claro, já que estavamos em julho, contudo meu coração saberia explicar exatamente o porque da estiagem inesperada. Você. O mais piegas dos clichês não poderia ser capaz de justificar o sorriso que se abriu dentro de mim. Foi como mágica. Inesperadamente e inexplicavelmente o céu se abriu e eu... Sorri.

Meu interesse por você havia crescido e a distância entre nós só me fazia querer construir uma ponte que nos ligasse o mais rápido possível. Eu tinha de fazer algo, estabelecer algum contato porque a sensação que eu tinha todos os dias antes de dormir é que eu iria acordar, o ceú estaria cinzento outra vez e você teria ido.

De fato, naquela noite, adormeci. Mas ao contrário dos pensamentos terríveis que me passaram à cabeça outrora, você veio naturalmente como quem não queria nada, seu andar despreocupado nos aproximando. Conversas, risos, conselhos, sol, festas, risos, valores, amor, risos, Bob Marley, mar, céu, por-do-sol, reggae, skate, risos, nós.

Você poderia ao menos ter me avisado. Dado-me algum tipo de sinal de que me decepcionaria, que a nossa fantasia era demais para durar, que nosso risos eram saborosos demais para sua boca. Porque garoto, aquele foi o dia em que você me destruiu. Ver-te ir foi doloroso aos olhos, boca, braços, pernas... Tudo em mim cedia. As borboletas no estômago viraram náusea e era só eu no cinza, chorando no vazio.

O inverno finalmente havia se ido, carregado por você, como as estações de fato são. Passageiras. Só assim eu pude ver a verdade que havia escorrido de nós, quando a consciencia me assumiu o juizo e inesperadamente e inexplicavelmente o céu se abriu e eu... Sorri.


1 de mai. de 2010

Abrigo

Por vezes me enganei. Tantas outras fui enganada. A verdade é que me acostumei a contar histórias que partem de conclusões, e que se mantém em um ciclo infinito. Assim as experiências vão se privando de mim, os erros pegam distancia e o amor vira mito.

- As vezes me pergunto o que há de errado. - comentei com um suspiro.

- As coisas sempre estão erradas para você - falou cuidadoso - Quer dizer, você ainda não conseguiu ponderar o equilíbrio entre viver e sonhar. Confesso que a essa altura já perdi as esperanças que algum dia consiga fazê-lo.

- Não fale como se isso fosse defeito, é o que minha mente respira. Sonhos. - pensei. - eu só preciso de alguem que divida isso comigo...

- Como seu amigo devo lhe ser sincero. - continuou - Pouco seria para você alguem para dividir, porque eu sempre estive aqui e nunca fui o bastante. Você precisa de um abraço, melhor dizendo, um abrigo. Só assim você poderá se proteger do amor que explode dentro de ti.


"Um brilho intenso, um desejo, eu quero um beijo
Um beijo imenso, onde eu possa me afogar"
[Lisbela - Los Hermanos]
25 de abr. de 2010

Distante

Invejo, agora, os que dormem seus sonos tranquilos e repousam suas cabeças nas nuvens macias dos sonos longínquos. Quem dera eu poder me dar ao luxo de fugir da minha consciência pertubadora, para assim permanecer em um universo paralelo meu. Distante.

Sorrio, agora, para os que injustamente criam uma realidade que não é minha. À aqueles que se sentem no direito de me mostrar um amor moldado por palavras que não se ouvem, por atos que não se veem, por cheiros que não exalam, por toques que não se sentem. Quem dera eu poder respirar o ar que me falta uma só vez. Distante.

Almejo, agora, a leveza das nuvens que flutuam o céu na certeza de algum lugar, já que o destino que me foi dado pesa e me escurece as vistas. É como estar segurando blocos de cimento por uma eternidade, à espera inútil da sua decomposição. Alguns me disseram que não tarda a acontecer, eu espero. Distante.


"Aquela nuvem escura está abaixando.
Me sinto como se estivesse batendo na porta do Céu."
[Knockin' On Heaven's Door - Guns N' Roses]
 

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