Com sua roupa mais velha e o seu cabelo mais bagunçado, ele sentou-se sobre os degraus solitários daquela velha casa na qual vivia e pegou o seu livro, que por alguns meses havia estado escondido dentro de uma fenda do chão de madeira, já gasto da sua varanda. Este tinha uma capa preta meio surrada, caligrafada com algumas letras douradas, que o tempo se encarregou de borrar e deixa-las ilegíveis.
Durante algum tempo permaneceu sentado, imóvel, contemplando o seu livro fechado. Ao julgar pelo vazio dos seus olhos, acredito que lembranças estavam sendo recordadas e postas em um presente que ele próprio parecia não fazer parte, renega-se talvez. Ou quem sabe, só estava ali olhando para o nada, o que é bem provável, já que eu o havia pego diversas vezes assim. Finalmente resolveu o abrir e para meu espanto as páginas estavam todas em branco. Segurei um suspiro abafado para que ele não desconfiasse da minha presença ali, quase que sem propósito nenhum, apoiada em um cerca e com um livro na mão. Hão de concordar, portanto, com o meu desapontamento e o gasto desnecessário da minha atenção em algo tão sem sentido. Eu poderia ter avançado mais um capítulo de
Clara dos Anjos, mas ao contrário disso, decidi observar um velho coitado folheando incessantimente seu livro vazio.
Em um impulso desnecessário, e um interesse fora do normal em algo que não era da minha conta, levantei-me - sem me preocupar o quão sujo estava o meu vestido floral - e fui decida e pronta para perguntar qual era o problema daquele cara e o que ele achava que estava lendo em um livro em branco. Eu me coloquei de pé na sua frente e quando estava abrindo a minha boca para começar o meu falatório, ele levantou seu olhar, me olhou nos olhos e disse:
- Engraçado como depois de 50 anos de vida, não consegui escrever uma única só palavra sobre mim. Mais estranho que isso, é o fato deprimente e algumas vezes consolador de que não sou o único. - pausou enquanto eu sentava ao seu lado. - Se eu te perguntasse qual foi o dia mais feliz da sua vida, será que você me responderia algo suficientimente maravilhoso e satisfatório? Algo que não precisasse se comparado com os seus dias mais tristes para se tornar algo especial? Pois é, é como eu sempre digo: Não importa o quanto você faça e viva, tudo nunca é o suficiente.